Entre dezembro de 2020 e abril de 2021, estive imerso nas florestas que circundam a região metropolitana do Recife. Esses fragmentos são remanescentes da Mata Atlântica, bioma que outrora cobria grande parte da região. Caminhar pela mata sempre exerceu um fascínio particular sobre mim, é como visitar um mundo onde nos é exigido respeito e uma espécie de permissão silenciosa para alí estar.
Superflora nasce dos encontros proporcionados por essas longas caminhadas. Nichos de luz surgem e desaparecem conforme os raios atravessam, quase teatralmente, as copas das árvores. São esses recantos da floresta que se revelam a mim e que, de alguma forma, consentem em ser fotografados.
Em 2024, regressei à floresta, desta vez à Amazônia. A convivência com uma comunidade indígena ribeirinha intensificou a dimensão mística já presente no trabalho.

Superflora #01, 2021 — 120×150cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #02, 2021 — 120×150cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #03, 2021 — 150×120cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #04, 2021 — 150×200cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #05, 2021 — 80×100cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #06, 2021 — 150×200cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #07, 2021 — 120×150cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #08, 2021 — 120×150cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #09, 2021 — 120×150cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #10, 2021 — 150×200cm — Ed. 6 + 1 P.A.

Superflora #15, 2024 — 152×122cm — Ed. 3 + 1 P.A.

Superflora #16, 2024 — 152×122cm — Ed. 3 + 1 P.A.

Superflora #31, 2024 — 152×122cm — Ed. 3 + 1 P.A.
Superflora, 2021 — Vídeo em loop 31 min 06 seg
Vista da Exposição
Galeria Foco, Lisboa, 2022
A língua que não podemos falar, mas ainda assim, chega até nós
Há mil maneiras de dizer não à mudança, de disputar o coletivo a favor de uma missão privada para transcender tudo o que é partilhado. Um dos métodos de negação é a busca da desconexão dos elementos, do repúdio da terra, do ar, do fogo, da água e do éter. A afirmação do eu humano singular como o auge da evolução emerge de uma longa tradição ocidental de ilusão. Como pode existir qualquer pessoa sem as referências massivas interligadas de outros seres vivos? A humanidade está confinada à linguagem e aos sistemas de tradução. Uma das deficiências da linguagem é o perpétuo regresso ao anthro. Os povos indígenas de todo o planeta, têm em comum cosmologias que dão voz à natureza. Isto não é algo a ser assumido ou menosprezado. Se nós, enquanto humanos, falamos um conjunto muito limitado de línguas, imaginemos o que isso significa para a nossa capacidade de compreender o que está realmente a acontecer à nossa volta.
Nas lúcidas palavras da recentemente falecida Joan Didion: contamos a nós próprios, histórias para podermos viver… Interpretamos o que vemos, selecionamos a mais viável das múltiplas escolhas. Vivemos inteiramente, especialmente se formos escritores, pela imposição de uma linha narrativa sobre imagens díspares, pelas ideias com as quais aprendemos a paralisar a fantasmagoria em mutação que é a nossa experiência real. Estas narrativas a que Didion se refere, são a própria substância do que permite à humanidade prosseguir uma agenda que subverte, oprime, e escraviza os mundos da natureza.
Lakota: O coração do homem longe da natureza torna-se duro. (Standing Bear)
Navajo: As montanhas, eu torno-me parte delas… As brumas da manhã, as nuvens, as águas de encontro, eu torno-me parte delas. (provérbio)
Mazatec: Cure-se a si próprio, com as folhas de hortelã e de menta, com o neem e o eucalipto. Adoce-se com lavanda, alecrim e camomila. (Maria Sabina)
Krenak: Filho, silêncio. A Terra está a dizer isto à humanidade. E ela é tão maravilhosa que ela não está a dar uma ordem. Ela está simplesmente a pedir: Silêncio. Este é também o significado de recordação. (Ailton Krenak)
Maasai: A floresta tem ouvidos. (provérbio)
Márcio Vilela, com a sua prática imersiva que o trouxe profundamente em contacto com a selva no coração de Recife, acrescentaria a esta lista de adágios. Ele disse uma vez que enquanto caminhava de lugar em lugar neste ambiente, que a dada altura sentiu que lhe foi concedida permissão, o que lhe abriu o espaço para começar a fotografar. As obras que vemos na Galeria Foco são prova deste convite para entrar numa relação íntima com o verde, com as texturas, com a luz, com as sombras, e com as vibrações que o rodeiam. Vilela partilha uma linhagem com Andy Goldsworthy e Robert Smithson, com Ansel Adams e Tina Modotti. Estes são artistas que passaram tempo, religiosamente, no exterior. Vilela, com Superflora, transmite que a fotografia não precisa de ser dividida em categorias que se desviem ou regressem ao retrato ou ao documentário. Superflora é uma afirmação de mudança e por isso é uma forma de meditação. Fora das tradições terrestres e fotográficas, Vilela habita outro cânone, o do curandeiro/a. O veneno e o remédio vivem sempre um ao lado do outro, e Vilela está consciente deste princípio. O seu trabalho, revela assim os maiores processos cíclicos de cura, nos quais participam, tanto os seres humanos, como os mundos da natureza.
— Josseline Black

















