Imagine que nos encontramos num local ao nível do mar num dia de céu limpo e sem nuvens. Se olharmos para cima, podemos observar o céu com a sua cor azul característica. Agora imagine que estamos no mesmo lugar, mas a bordo de um balão de gás hélio com capacidade para ascender até aos 38.500m de altitude. Durante a subida vamos observando o céu, que vai ficando cada vez mais escuro. Quanto mais alto estamos, menor é concentração das moléculas presentes ao nosso redor, a atmosfera vai-se tornando rarefeita. A cor azul do céu é o resultado da interação da luz com as moléculas presentes na atmosfera. A variação nesta concentração tem um efeito direto sobre o espectro de luz visível; sendo assim, o azul torna-se mais escuro à medida que a concentração de moléculas diminui. Quando finalmente chegamos aos 38.500 metros, olhamos novamente para cima. Agora o céu, antes azul, é totalmente negro. Entre os 0m e os 38.500m existem infinitas possibilidades para os tons de azul do céu. O registo destes tons é o ponto de partida deste estudo.

Estudo com garrafa de gás hélio, 2012 — 40×60cm
Arquivo / Archive
Imagens de arquivo recolhidas durante a investigação do projeto — registos técnicos, meteorológicos e fotografias de teste relacionadas com o lançamento de balões de gás hélio em grande altitude.






Caderno Japonês / Japanese Notebook
Páginas do caderno de campo do artista, com anotações, esboços e apontamentos feitos durante o processo de investigação e preparação do projeto.








Coleção de Selos / Stamp Collection
Selos postais de temática meteorológica e aeroespacial, reunidos pelo artista como referência visual e histórica para o projeto.









Lançamento do balão meteorológico a 38.500m, 2015. Vídeo 3 min 27 seg

Estratosfera vista a 38.000m, 2015 — 150×200cm

Ponto de Ruptura do Balão a 38.500m de altitude, 2015 — 100×80cm

Destroços do Balão na Estratosfera, 2015 — 122×150cm

Destroços do balão em terra, 2015 — 80×100cm

Azul do céu a 0m, 2015 — 80×65cm

Azul do céu a 5000m, 2015 — 80×65cm

Azul do céu a 10000m, 2015 — 80×65cm

Azul do céu a 20000m, 2015 — 80×65cm

Azul do céu a 38.500m, 2015 — 80×65cm
Vista da Exposição
Museu Nacional da República, Brasília, 2019
Texto Crítico / Critical Text
É um trabalho bastante estranho aquele que o artista Márcio Vilela, brasileiro a viver em Portugal, apresenta (até 13 de outubro) sob a égide da Ocupart, num apartamento do 4º andar do Consulado (e é muito mais interessante que a exposição de fotografias photoshopadas lá apresentadas). Estranho porque poderia simplesmente ser, não uma exposição artística, mas a apresentação de uma investigação científica: qual é a cor do céu? Os eruditos dirão que o céu é azul porque essa é a frequência luminosa na qual as moléculas da atmosfera difundem mais a luz do sol (se bem compreendi). E durante séculos, os pintores tentaram produzir esses tons de azul; os holandeses do século de ouro, banhados na sua luz húmida, foram os primeiros mestres nisso. Mas pintores e fotógrafos sempre foram muito mais fascinados pelos céus nebulosos, tormentosos, cinzentos e brancos: assim os famosos “Equivalents” de Stieglitz ou as composições temporais de Jacqueline Salmon. Para agradar ao artista, a pureza cerúlea é demasiado vazia, demasiado uniforme, e deve ser povoada de nuvens ou de estrelas.
Ele, Vilela, quer apenas um céu puro, mas quer isso em toda a sua diversidade, toda a sua profundidade, todas as suas nuances de azul: o seu projeto consistiu em prender aparelhos fotográficos e câmaras a um balão sonda que é elevado a 38 000 metros antes de explodir. Os milhares de fotografias do céu foram assim realizadas, a rarefação da atmosfera traduziu-se num escurecimento da imagem: é um Pantone de azuis que temos ali, mais rico do que qualquer catálogo de cores. O artista selecionou algumas imagens, da mais azul ao nível do solo à mais sombria no ponto mais alto da trajetória; no topo, sem atmosfera, é um negro de ausência que reina. Chegado a 38 km, o balão explode e a foto desse instante mostra o invólucro em farrapos em redor do núcleo. Os aparelhos descendem no final de paraquedas, e Vilela recupera-os. É um trabalho obsessivo de investigação, um processo que move o autor, porque (um pouco como Müller-Pohle) a máquina tira as fotos automaticamente e o artista seleciona de seguida, uma inversão da regra clássica: escolher o enquadramento do ponto de vista para fotografar. O artista não é mais um fotógrafo, no sentido de fazer fotografias, ele é o criador e organizador de um processo quase científico que leva a resultados visuais áridos e refinados. Este projeto é um pouco um beco sem saída: abandono de toda a pretensão estética para privilegiar o único programa. Os trabalhos anteriores de Vilela tinham a ver com a paisagem, que ele via um pouco como um espelho de si mesmo, e já tinha sido fascinado por outras imagens incertas, as névoas dos Açores, encobrindo quase toda a paisagem no cinza nebuloso das nuvens, o oceano visto de cima ou o “white out”: uma maneira, já, de privilegiar o olhar sobre o visto.
Texto de Marc Lenot para a Arte Capital, 2017








