Lembro-me de num dia em 2014 estar a olhar para o céu à noite e ver um ponto muito brilhante. Este ponto fazia um caminho solitário no céu, desaparecendo de repente. Esse evento não demorou mais de 60 segundos, mas foi o suficiente para captar toda a minha atenção e criar em mim grande curiosidade. Foi um satélite passando os céus nessa noite, justamente por cima de minha cabeça. Quando esse satélite atingiu a sombra da terra onde deixou de ser visível, desapareceu. Senti-me impressionado por essa visão, e comecei imaginando todas as possibilidades que esse simples ponto traria à minha prática enquanto artista. Nesse momento não sabia ainda o que seria, mas percebi que criaria algo grandioso. Senti como que um empurrão nessa direção.

Retrato com antena UHF, 2019

Origem, 2019

Le satellite le plus petit du monde, 2019

Fotograma 104, 2019

Fotograma 86, 2019 — 100×100cm

Previsão para passagem de Argos — detalhe do caderno de artista, 2019

Cosmos 1975, 2019 — 150×200cm

Atlas Centaur, 2019 — 150×122cm

Helios 1, 2019 — 150×122cm

Haruka, 2019 — 150×122cm

Argos, 2019 — 150×122cm

Raio laser apontando para a estrela polar, 2019 — Vídeo loop 8 min
Vista da Exposição
MNAC — Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, 2019
O satélite como instrumento de desenho
Há coisas que nos entram pelos olhos dentro quando mais ninguém as vê, que se fixam na nossa retina e se prolongam na memória, inscrevendo-se no inconsciente e despertando o desejo. Foi o que aconteceu com Márcio Vilela há sete anos quando olhava para o céu e subitamente viu um ponto brilhante a deslocar-se num caminho lento e a inscrever uma linha no fundo negro para, cerca de um minuto depois, desaparecer subitamente. Percebeu que não se tratava de uma simples estrela e despertou para a temática dos satélites artificias. O fascínio pelas questões científicas e pela astronomia já vinha de criança, e cresceu assim a vontade de saber mais sobre aquele fenómeno.
Desde sempre que o homem ergue o olhar para o céu, quer seja para o apreciar, quer para aprender com ele através das estrelas. É curioso que a etimologia da palavra desejo, que vem do latim Desiderare, tem na sua origem Siderare, que significa astro, estrela. A vontade de conhecer essa outra dimensão povoada por corpos celestes desconhecidos tem sido uma constante ao longo da história da humanidade e foi-se objetivando com o desenvolvimento das ciências e da tecnologia. A primeira exploração direta do espaço teve finalmente início em 1957, quando a União Soviética concretizou com sucesso o envio de um satélite artificial denominado Sputnik. A partir daí, milhares de satélites têm sido lançados para o céu.
Conseguir visualizar da terra, a olho nu, o movimento de um satélite no céu noturno não é algo que a maioria das pessoas tenha experienciado, talvez porque num primeiro momento possamos confundir esse ponto brilhante com um comum avião ou, simplesmente, porque não é assim tão simples de ver, dado ser necessário que o satélite seja iluminado pelo sol, pelo que é mais fácil no crepúsculo. Passou a ser este o objetivo de Márcio Vilela e o conceito da linha simples física deu corpo ao projeto artístico que agora vem a público nesta exposição, materializada em desenhos, fotografias, vídeos e materiais documentais.
A exposição Satellites de Márcio Vilela é composta por três momentos. O primeiro núcleo reúne um conjunto de peças que introduzem e contextualizam o projeto: destaque-se o desenho primordial Origin, de 2012, que apresenta uma simples linha branca num pequeno papel preto. Este desenho foi realizado quando o artista se colocava a seguinte questão: “Seria possível usar satélites em órbita da Terra como ferramenta de desenho através de um meio fotográfico? Depois de pensar sobre essa questão, lembro-me de pegar um pedaço de papel preto que estava na minha mesa de atelier e desenhei uma única linha branca sobre ele.” Foi um esboço da proposta que iria ganhar corpo, com a representação de um ponto imaginário em movimento, a traçar uma linha reta no céu escuro, pressupondo já o desejo e possibilidade de captar a linha desenhada por um satélite numa fotografia de longa exposição.
Na sequência deste desenho basilar, Márcio Vilela começou a explorar e antecipar a aleatoriedade dos possíveis resultados que poderia vir a encontrar, criando para tal o Livro de Possibilidades. Um caderno de páginas pretas onde desenhou linhas retas a branco, uma em cada página, perfazendo um total de cinquenta e oito eventuais versões do que poderia vir a obter num futuro trabalho fotográfico. Estes esboços permitiram antecipar questões, constituindo-se como referente essencial e ponto de partida no desenvolvimento de todo este projeto.
Ao lado deste pequeno desenho primordial, é-nos apresentada outra pequena imagem, que traduz de certa forma um ponto de chegada. Trata-se de um postal em que se vê uma parte do corpo de uma pessoa a segurar na mão o mais pequeno satélite do mundo (“Le satellite le plus petit du monde”, french postcard, 1962). Este postal surge como um fragmento de uma cena a que não acedemos na totalidade (o fundo neutro nada revela sobre o local e momento em que a ação acontece, do mesmo modo que nada sabemos sobre a pessoa que segura o satélite), o que deixa espaço à imaginação, à construção de um cenário em que podemos escolher o personagem, sugestionando que podemos mesmo ser nós próprios a completar o quadro e a protagonizar o evento de lançar um satélite. Foi o que aconteceu com o próprio Márcio Vilela que, ao descobrir a possibilidade de poder lançar o seu satélite pessoal no espaço, tem vindo paralelamente a preparar esse momento como epílogo deste projeto.
Este núcleo contempla ainda uma caixa-objeto de armazenamento de um rolo antigo de filme de satélite e a imagem de um dos mais de 150 fotogramas existentes, que Márcio Vilela visualizou através de uma mesa de luz, para depois fotografar e digitalizar num ficheiro a partir do qual imprimiu a imagem em grande formato, convertendo o negativo em positivo. Este fotograma revela uma qualidade que surpreende, dado que a imagem realizada a partir do Universo permite ver em detalhe o relevo e desenho de um pormenor de paisagem na Terra.
O conjunto completa-se com uma fotografia que resulta do processo inverso e regista a partir da superfície terrestre a ação que decorre no Universo. Márcio Vilela concretizou a captação fotográfica da linha desenhada por um satélite num céu negro, cheio de estrelas e constelações, dando início a um périplo por reservas Dark Sky, de Cáceres, aos Pirinéus, e em particular no Alqueva, em que, com recurso a uma base de dados de satélites, não só antecipava a passagem do satélite como a sua identificação.
O segundo núcleo é composto precisamente por uma série de fotografias que Márcio Vilela recolheu diretamente, de diferentes satélites em órbita. A impressionante ampliação consubstanciada pelo artista resulta em imagens anamórficas, em que a inevitável abstratização não impede de percecionar objetos tridimensionais que estão a mais de 2.000 km da terra. Em cada fundo monocromático negro distinguem-se formas e cores diluídas que concedem um cariz pictórico às diferentes superfícies diáfanas em movimento.
A par desta série fotográfica, é apresentado um vídeo que introduz a extensão temporal na expressão artística deste projeto, ainda que num primeiro olhar a imagem pareça estar parada, por ser um plano fixo de um traço verde que cruza o céu noturno. No entanto, quando demoramos o olhar percebemos a intensa atividade de cintilação das constelações por detrás da luz verde e a toda a volta, com exceção para a Estrela que a linha verde aponta, a estrela Polar. O plano fixo traduz o facto de a também denominada Estrela do Norte ser a única estrela fixa no firmamento celeste e a que permanece desde sempre alinhada com o eixo de rotação da terra, sendo por isso elemento referencial de orientação na superfície terrestre. Ao apontar um laser a Polaris, Márcio Vilela sublinha a sua relevância no todo.
O terceiro e último núcleo é formado por quatro vídeos com som, projetados individualmente, cada um na sua parede, dentro de uma black box quadrada. O espaço convida à imersão, exigindo o apuro sensorial da visão e da audição, para que os olhos se adaptem à total escuridão e consigam aperceber-se das estrelas brilhantes que são os satélites e dos desenhos pontualmente traçados no céu no seu movimento orbital. Por seu lado, os ouvidos são desafiados a captar, por entre o som de fundo do espaço envolvente, o ruído subtil do próprio satélite a passar. Aceite o desafio, o espectador acaba “transportado” para o espaço de consumação do caminho percorrido ao longo do projeto. Um espaço de dimensão poética, de sublimação de uma estética minimal, que valoriza as subtilezas. Ao explorar a dicotomia entre a representação e a abstração, o virtual e o real, Márcio Vilela afirma um caminho artístico que promove o diálogo da arte com a tecnologia, inscrevendo o satélite como elo de ligação e convertendo-o em instrumento de uma das mais antigas e primordiais linguagens do Homem, o desenho.
Texto de Adelaide Ginga, 2019
Depoimento de Artista para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
Satellites, 2019 — Vídeo do depoimento de artista para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado — MNAC. 3 min 11 seg




Uma cerimónia muito inútil
Márcio Vilela em conversa com Moritz Neumüller
MN: Márcio, desde que te conheço que és obcecado por satélites. Quando é que começou o teu interesse pelo assunto e como é que esse teu fascínio se tornou num projeto artístico?
MV: Tudo começou há cerca de 5 anos. Eu estava simplesmente a olhar para o céu à noite, algo que faço desde a minha infância, e estava a divertir-me. De repente, vi um ponto brilhante a mover-se pelo céu. Foi uma experiência muito poderosa. Eu moro na cidade, pelo que hoje em dia já não vejo mais tantas estrelas. Foi um encontro muito especial e senti, nesse momento, nesse curto instante, que esse evento iria mudar-me de alguma forma. Essa sensação permaneceu na minha mente e continuei a pensar sobre isso. Comecei a compreender que tinha que dedicar o meu tempo a pesquisar sobre o assunto, a trabalhar essa questão no âmbito da minha prática artística. Algumas semanas depois, estava no meu atelier a cortar papel. Uma das sobras era um pedaço de papel preto, um pequeno quadrado completamente escuro. Parecia um céu negro. E eu pensei: e se fizesse uma foto de longa exposição daquele ponto que vi a mover-se à noite? Qual seria o resultado fotográfico de tal ato? Obviamente, iria resultar numa linha reta. Então peguei numa caneta branca e desenhei uma linha diagonal no papel. Ficou lindo. Esse foi o ponto de partida de todo o projeto. O pedaço de papel está comigo desde então.
MN: Em que ponto soubeste que o ponto brilhante que se tornou uma linha branca era, na verdade, um satélite e não uma estrela? Imediatamente?
MV: Sim. A ciência sempre me interessou e fascinou. Assim, sabia que os satélites são visíveis à noite e soube imediatamente que era um satélite. A velocidade de um satélite é muito mais lenta que o início de um disparo, mais lenta que uma estrela cadente. Parece mais um avião.
MN: Então houve uma espécie de “clique” quando viste que não era uma estrela cadente mas um satélite, e isso desencadeou o fascínio que viria a tomar a tua atenção por alguns anos…
MV: Exatamente. Foi como uma faísca. É muito difícil explicar este tipo de sentimentos. Eu sou uma pessoa muito emocional, para o bem e o mal, e esse clique tornou-se num poderoso ponto de partida para um projeto de longo prazo.
MN: OK. E o que veio depois?
MV: Recebi um convite para uma residência artística em São Miguel, uma ilha nos Açores, onde deveria ficar duas semanas para desenvolver um novo projeto. Uma ilha no meio do oceano era o lugar perfeito para tirar fotos de satélites atravessando o céu negro. Depois de algum tempo tornei-me num verdadeiro especialista neste tipo de imagens, ou melhor, um pouco nerd. Existe uma regra que é chamada de Regra dos 500: divide-se 500 pela distância focal e esse é o tempo máximo que tens para fazer uma imagem sem obter o arrastamento das estrelas. Por exemplo, com uma lente de 50 mm, calcula-se 500/50, o que equivale a 10 segundos. Se não tiveres uma exposição logo abaixo de 10 segundos, não tens arrastamento das estrelas, mas é mais do que suficiente para ver a linha desenhada pelo satélite.
MN: Sentiste que tinhas o controlo do processo de criação de imagens?
MV: Antes de ir para os Açores fiz o que chamo de O Livro das Possibilidades, que consiste num livro com linhas brancas desenhadas aleatoriamente nas páginas. Com essas linhas, tentei prever como o satélite atravessaria o enquadramento da objetiva. É preciso não esquecer que isto é muito diferente do estúdio fotográfico onde colocas o objeto ao centro do enquadramento. Aqui, o satélite está a passar, procuras uma constelação próxima, ou qualquer coisa que possas reconhecer no céu, apontas a câmara naquela direção, contas 10 segundos e esperas pelo melhor. O Satélite cruza o enquadramento de uma maneira absolutamente aleatória. Fiquei espantado com os primeiros resultados deste processo porque as fotografias eram muito parecidas com os desenhos que eu tinha feito antes. Especialmente os satélites que cruzavam a margem da imagem tinham uma grande semelhança com o que eu tinha imaginado. Quando estás numa residência artística, há um momento em que realmente te desconectas. Estás isolado num lugar e tens aquela sensação de que algo vai acontecer, e simplesmente deixas acontecer. Foi realmente o terreno perfeito para construir este projeto. Além disso, a pessoa que me convidou para a ilha, um grande amigo meu, contribuiu com muito conhecimento sobre os aspetos técnicos da comunicação por via satélite. Ele trabalhou por 20 anos no departamento de comunicação da NATO e discutimos muitas coisas. Uma delas foi como é que tu comunicas aqui, no nosso planeta. Ele falou-me sobre a possibilidade de transmitir um sinal para a ionosfera e refleti-lo. Em teoria, o sinal pode dar a volta ao planeta e voltar a ti. Essa ideia fascinante foi, mais tarde, combinada com a ação dos rádio amadores de apontarem as suas antenas para o céu, utilizando os satélites para refletir um sinal de rádio à espera de estabelecer uma conversa com alguém que esteja a realizar o mesmo ato do outro lado do planeta.
MN: Parece que tens aprendido muito sobre satélites…
MV: Sim, mas ainda há tantas coisas que eu não sei. Por exemplo, até recentemente, costumava acordar às 2 da manhã para ir observar os satélites, mas não é possível vê-los a meio da noite. O satélite só pode ser observado quando reflete a luz do sol. E isso só pode acontecer quando o satélite ainda está na zona de exposição solar, enquanto o observador está na sombra. Por outras palavras, logo após o pôr-do-sol e antes do nascer do sol. Essas pequenas coisas surpreendem-me e fazem-me sentir como uma criança. Mesmo depois de todos estes anos, ainda sinto o mesmo entusiasmo de antes quando vejo um satélite a cruzar Orion, e esta é a coisa mais preciosa sobre este projeto. Os meus amigos vêm ter comigo e dizem-me que estiveram no campo e viram um satélite. Não é incrível? Alguém vê um satélite e pensa em mim. Ou melhor, pensa no projeto. Essa é a maior honra para mim.
MN: Poderemos dizer que o teu fascínio te liga a outras pessoas?
MV: Podes ter a certeza que se eu estiver em tua casa para fotografar satélites, para filmar satélites, irei bater à tua porta para te convidar a observar o céu. Não importam as horas! Recentemente, estava no interior de Portugal e mandei uma mensagem para a dona da quinta minha vizinha: “Tens de ir para o quintal porque a Estação Espacial Internacional vai passar por cima da tua propriedade”. Ela mandou uma mensagem de volta “O que é que eu devo procurar?” Eu disse-lhe: “Procura uma estrela que esteja a mover-se”. Ela inicialmente ficou confusa, por causa dos aviões, mas depois, finalmente, vimo-la. Muito subtil e lenta, no começo, e depois a acelerar, e passou em cima das nossas cabeças, desaparecendo de seguida. Irei avisar mesmo que não conheça a pessoa: “Vai haver uma passagem de um satélite, venha ver!”. Sim, estás certo, é um projeto que me liga às pessoas.
MN: Isso é engraçado porque a maioria dos satélites é realmente feita para comunicação, para conectar pessoas. Tu estás a apropriar-te e a cumprir essa missão, à tua maneira.
MV: O importante não é o satélite em si, mas a pessoa que acredita que há algo ali e que talvez essa “coisa” irá enviar um sinal para alguém que efetivamente vai responder. Eu descreveria esse sentimento como um deslumbramento.
MN: Parece uma cerimónia bastante inútil falar com alguém do outro lado do planeta, quando podes simplesmente pegar no telefone e ligar a esta pessoa. Ainda assim, esse procedimento completamente inútil é também poético, de certa forma. Pegas num pedaço de metal e transformas-lo num objeto poético. Já conseguiste falar com alguém do outro lado do mundo?
MV: Ainda não falei com ninguém, porque é preciso ter uma licença de radioamador para isso e eu ainda estou a tentar conseguir uma.
MN: É assim tão difícil de conseguir?
MV: Primeiro, obténs uma licença que te permite apenas ouvir. Depois, precisas de aguardar dois anos e, se não violares nenhuma regra nesse período, receberás a licença completa.
MN: Então ainda estás na fase de escuta?
MV: Ainda estou a aprender. Tenho a antena e o rádio. Gostaria muito de vir a fazer isso, mas tenho trabalhado em muitas outras coisas paralelas, como as filmagens e as fotos. Não tenho pressa de o fazer. Não quero fazer tudo ao mesmo tempo. Quero deixar isso acontecer por um tempo. Porque acho que se vou começar a conversar com as pessoas, isso tornar-se-á o tema principal. Também preciso de preparar-me bem para essa nova etapa. Por exemplo, tenho de projetar e produzir o meu próprio cartão postal. Quando começas a conversar com uma pessoa, reúnes informações dessa pessoa e, em seguida, ela vai enviar-te o seu cartão postal e fica a aguardar a reçeção de um cartão postal em troca.
MN: Quando começaram as pessoas a comunicar através de satélites desta maneira peculiar?
MV: Não tenho certeza. Assim que alguém percebeu que seria possível fazê-lo, acho eu. Geralmente são engenheiros aeroespaciais, pilotos de jatos ou investigadores. Este é apenas o seu hobby. É como um fotógrafo profissional a usar uma câmara pinhole. Ou talvez tenha sido um cientista que pensou “Sabes que mais? Aquela coisa, quando passa, pode refletir sinais de rádio e, se eu comprar uma antena e um rádio por 10 euros, poderia falar com uma pessoa do outro lado do planeta. Vou tentar”.
MN: É uma espécie de hacking por satélite.
MV: Sim! O satélite está a fazer outras coisas. Está numa missão, a transmitir sinais de TV ou a enviar previsões meteorológicas. E eles têm os nomes mais incríveis de todos os tempos. Alguns são apenas números, mas alguns têm nomes lindíssimos. Quando estás do lado de fora a tentar escutar, tens de considerar duas frequências, a ascendente e a descendente. A ascendente é aquela que tu envias e a descendente é aquela que tu ouves. A frequência muda quando o sinal é refletido no satélite.
MN: O satélite interage com o sinal quando o envia de volta?
MV: Sim. Sabes, quando eu era criança e olhava para o céu, sempre tive a sensação de infinitude. Questionava-me sobre os limites do universo. Quando eu já tinha 8 ou 9 anos, o meu pai comprou-me um telescópio, então pude ver a lua de perto. Tudo parecia tão calmo ali. Sempre senti que aquele lugar seria perfeito para desligar um pouco e poder estar presente numa realidade diferente. Eu acho que todas as pessoas se sentem conectadas com a infância quando veem uma estrela cadente.
MN: Este projeto contempla várias partes, para além dos desenhos, de O Livro de Possibilidades e dos vídeos. Há também as imagens de satélites, que foram tão ampliadas que perdem a sua definição, também as imagens que tens do satélite Landsat e as imagens que compraste no eBay tiradas de um satélite.
MV: Sim. E tenho uma peça muito importante sobre a qual ainda não falamos! Um postal francês dos anos 70 que descobri e que mostra “o menor satélite do mundo”, um satélite triangular, na mão de uma pessoa. Encontrar este postal foi uma verdadeira revelação para mim. Sempre que pensava em satélites, pensava em algo gigantesco. Tão grande que poderia ser visto da terra. Mas hoje em dia existem pequenos satélites. Agora, se essa pessoa estava a segurar um satélite, passei a ter a certeza de que poderia colocar o meu no espaço. Não poderia ser assim tão difícil. Depois de ver este postal, comecei a pesquisar sobre a possibilidade de ter o meu próprio satélite no espaço e descobri que existem os CubeSat, que são satélites com 10 x 10 x 10 centímetros. Quero colocar o meu próprio satélite em órbita, que consiste basicamente numa antena e num rádio.
MN: O teu satélite irá então emitir uma mensagem?
MV: Sim, irá emitir um código Morse.
MN: E tu queres revelar essa mensagem ou não?
MV: Eu posso mostrar-te, mas não posso revelar a mensagem. (Mostra o código morse tatuado na sua pele)
MN: Desde quando tens esse código morse tatuado?
MV: Coloquei esta mensagem na minha pele este verão, quando estava de visita ao Brasil, num momento muito especial. Mas tenho consciência da mensagem há talvez 2 ou 3 anos.
MN: E a linha que tens no teu braço? Quando é que a tatuaste?
MV: Essa fiz quando percebi que queria colocar um satélite no espaço, o que aconteceu há cerca de três anos, talvez. Isto faz-me não esquecer o meu objetivo.
MN: Um lembrete?
MV: Não, uma afirmação. Tenho algumas no meu corpo. Todas relativas aos meus principais projetos.
MN: No meu entendimento, o céu noturno desempenhou um papel importante na construção da cultura humana, da ciência e da arte. Os astrónomos foram os primeiros cientistas, os primeiros adivinhos, os primeiros artistas. Podes usar o céu para definir um calendário, para uso prático na agricultura, mas também para te sentires em controlo, para poder prever o que vai acontecer, para compreender o ciclo de vida, para construir uma consciência da nossa existência dentro um contexto maior. Então, quando algo está a mover-se no céu, isso torna-se especial. Porque é que um avião é menos especial que um satélite?
MV: Eu não gosto de aviões e de nuvens nas minhas imagens pela simples razão de que esses elementos trazem-te de volta à Terra. Se olhares na escuridão profunda do céu e, de repente, um avião aparece, de alguma forma ele traz-te de volta para cá. É uma coisa muito relacionada com o tempo. Porque em 200 anos talvez não haja mais aviões a piscar no céu. E há 100 anos eles também não estavam lá.
MN: Sim, e nem havia lixo espacial. Isso faz-me pensar sobre a relação entre o sistema estelar infinito, o nosso tempo de vida limitado e o tempo de vida de um satélite, que está algures entre os dois polos. Um pedaço de metal que vive muito tempo, mas ainda é feito pelo homem. É capaz de se tornar um plano de projeção para os nossos desejos e aspirações, uma espécie de ponto intermédio que faz parte do espaço, mas que também faz parte das nossas vidas terrenas.
MV: Sentes o quão pequeno és. Isso é um sentimento poderoso porque te faz sentir ligado ao todo. Colocar um satélite em órbita é um esforço monumental, mas mesmo esse esforço monumental acaba por ser uma coisa pequena em comparação com o planeta e ainda menor em comparação com a nossa galáxia. Colocar um satélite no espaço é, de facto, uma cerimónia inútil. Mas isso faz-me pensar em coisas verdadeiramente importantes.
Entrevista realizada via Skype a 13 de fevereiro de 2019