azores 2014

[PT] Olhar a paisagem, ser observado por ela. Insistir nessa mirada até que sua intensidade desestabilize a razão. Até que a paisagem se transmute em espelho.

Olhar com acuidade os relevos e enlevos da natureza e perceber neles a ressonância dos nossos próprios estados de espírito implica, necessariamente, em um certo esvaziamento da concepção e das certezas do eu. Por algum motivo não somente demarcado pelas estratégias técnicas, mas também por uma clara diluição do fotógrafo diante da paisagem, as fotografias silenciosas da série “Azores”, de Marcio Vilela, invocam um “eu metafísico” que transcendem os limites entre olhar e referente, ser e paisagem, cultura e natureza.

Em A arte cavalheiresca do Arqueiro Zen, do filósofo alemão Eugen Herrigel, o mestre-arqueiro diz ao seu discípulo: “Você não atira a flecha, algo atira”. Ao que o aprendiz responde:

“Temo que já não compreendo nada. Até o mais simples me parece o mais confuso. Sou eu quem estira o arco ou é o arco que me leva ao estado de máxima tensão? Sou eu quem acerta no alvo ou é o alvo que acerta em mim? O algo é espiritual, visto com os olhos do corpo ou é corporal, visto com os do espírito? São as duas ao mesmo tempo ou nenhuma? Todas essas coisas, o arco, a flecha, o alvo e eu estamos enredados de tal maneira que não consigo separá-las. Porque, quando seguro o arco e disparo, tudo fica tão claro, tão unívoco, tão ridiculamente simples…” “Nesse exato momento”, interrompeu-me o mestre, “a corda do arco acaba de atravessá-lo por inteiro”.

Equivale a dizer que todas essas coisas, a câmera, o enquadramento, a busca da luminosidade ideal, o fotógrafo e, por fim, a paisagem que o espreita e por ele é espreitada, estão definitivamente enredados. Amálgama que se forma de tal maneira que agora, ao contemplarmos essas tais fotografias, o que vemos é tanto uma devolução mecânica da paisagem transportada pela mágica fotográfica que ilude o espaço-tempo, quanto um autorretrato do artista – e, por conseguinte, de todos nós -, flagrado em seus desvãos, suas fragilidades e potências.

Vilela diz que partiu para Azores “a procura de um encontro”. Certamente. A um encontro de si mesmo, da sua essência que, num disparo de obturador, o leva a entender a aventura da sua individualidade e a porção universal que o conecta com o devir humano.

Uma fotografia: copas imensas de árvores frondosas se emparelham criando um hiato espacial entre ambas. Ao coloca-las em foco e calibrar a luminosidade, esse hiato se torna negro, misterioso, insondável, como uma alusão ao nosso inconsciente.

Esse espaço negro, antes de anunciar uma ausência, detecta a presença daquilo que ainda não veio à luz. Um galho rompe a monotonia da composição criando uma inesperada diagonal. Cria-se assim uma ponte que conecta as duas árvores, os dois corpos, à despeito do que pode vir a surgir do negrume que agora está quase obliterado. Metáfora das soluções que a razão engendra numa tentativa de resolver as pulsões do inconsciente?

Agora somos nós que confrontamos essas fotografias. E é a partir desse jogo especular deflagrado pela fotografia, que somos impelidos a assumir o lugar do fotógrafo. Os desígnios do trajeto da flecha até o alvo se restabelece. A corda do arco pode, enfim, nos atravessar por inteiro. “Onde existe um encontro, existe um retorno”, diz o artista. A fotografia é esse eterno retorno a um encontro ocorrido no passado e que segue em permanente mutação como a natureza, como nós.

Eder Chiodetto

Azores 1 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 1 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 2 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 2 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 3 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 3 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 4 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 4 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 5 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 5 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 6 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.
Azores 6 | 120x150cm | 3 + 1 P.A.

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